Entrei na sala em que se passava um filme de terror. Após os traillers terem acabados entrou uma “companhia” que se sentou do meu lado... O que era bem estranho, pois a fileira que eu sentei estava vazia e ele sentou bem do meu lado, como se fosse algum conhecido, ou sei la o que. Não trocamos palavras e não nos olhamos nenhuma vez antes das luzes se acenderem. Durante o filme cheguei a esquecer que tinha alguém "estranho" ao meu lado e me assustava quando me virava e encontrava um perfil de um garoto. Era até um perfil interessante, nariz proporcional, lábios finos que brincavam em um meio sorriso, cabelo curtinho e liso e uma barba cortada bem rente que lhe dava uma aparência de homem, mesmo ele aparentando ter no máximo 17 anos. Percebi que ele não reparava em mim, nem olhava para o lado para saber quem estava encarando e não parecia incomodado ou sem graça. Estava apenas assistindo e comendo pipoca, fazendo um barulho incrivelmente pertubador ao mastigar. Ficamos assim o filme todo e somente quando as luzes acenderam ele se virou e perguntou com um olhar curioso: "Não sentiu medo ?” Ah, me poupasse dessa. Por que eu sentiria medo? Um filme de terror como outros tantos que eu já vi. “Eu poderia ser um maníaco e só estavamos nós dois aqui nessa fileira... E você estava bem interessada em mim”. Ele disse isso com o sorriso mais cínico que alguém pode ter e uma piscadinha. Tinha uma voz forte, grossa, bem impactante. E ficou me encarando, me encarando até eu me sentir desconfortável... Particularmente eu odeio que as pessoas me encarem, principalmente os GAROTOS e DESCONHECIDOS. Eu queria sair correndo da frente dele, eu queria apenas ir comprar um milk shake exageradamente grande e ver se alguma coisa estava na liquidação. Mas ele continuava ali me encarando e respirando pesado como se estivesse intrigado ou tentando lembrar de alguma coisa importante. Até que de repente ele levantou com um susto e disse com uma voz esganiçada, como a de quem é forçado a falar depois de um susto, bem diferente da voz normal dele: “Me lembro de você!”. Depois disso ele saiu um tanto apressado e me deixou lá na sala de cinema meio sinistra, encarando por um longo tempo as pessoas e imaginando de onde ele me conhecia.
Saí de lá meio atordoada. Aquele dia estava prometendo. Primeiro um cara estranho senta do meu lado no cinema, depois ele diz que poderia ser um maníaco e em seguida diz que me conhece e sai correndo, como se fugisse de mim. Como alguém poderia fugir de mim?
Comprei meu milk shake e fui sentar na praça de alimentação. Olhei para o outro lado e vi grupinhos de adolescentes, que se formavam aos poucos. Perto deles um casal com duas crianças riam alto e divertido, como se estivessem no quintal de casa. Eu pensava que algumas pessoas tinham a sorte de ser felizes. Tinham o que queria, uma família perfeita, um par que completa, condições de sair, viajar, conhecer o mundo. E que outras como eu perdiam a felicidade aos poucos, deixavam ela ir embora com alguém ou alguma coisa... Eu tinha essa idéia de que a felicidade dependia do que eu tinha. Olhei mais ao meu redor e vi um casal de idosos bem no cantinho de um restaurante, perto das flores. Reparei que eles não soltavam as mãos e conversavam olhando nos olhos, cada um com um sorriso largo e contagiante que me fez sorrir também. Eu estava pirando. Era gostoso olhar para eles e ver que o tempo não tirou deles a felicidade e o amor que sentiam. Eu queria isso para mim. Eu queria que o Luca voltasse e envelhecesse comigo. Era nele que eu pensava quando falava de felicidade. Nós seríamos felizes, eu seria feliz...
Eu estava no meio desses pensamentos quando virei para terminar meu milk shake e tomei um susto tão grande que quase caí da cadeira. O menino do cinema estava sentado na minha frente. NA MINHA FRENTE. E sorria para mim. Não um sorriso cínico, parecia mais um sorriso de satisfação. Mas satisfação em que? Eu queria perguntar a ele o que ele pensava que estava fazendo, quem ele pensava que era para estar sentado na minha frente, sorrindo para mim. Mas ele não deixou eu concluir minhas especulações e disse: "Ellen! Você não lembra de mim, percebe-se. Vamos dar um volta?".

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