1 de mar. de 2011


PARTE III

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Eu sentia uma mistura de emoções surgindo impiedosamente dentro de mim ao olhar, sem medo, diretamente nos olhos de Luca. Tudo nele era lindo. Seu cabelo caindo nos olhos, sua expressão travessa. Mas seus olhos... Não tinha explicação. Era como ver ouro derretido, aqueles olhos avassaladores, penetrantes...
Nós ficamos assim quase a tarde toda. Não pronunciavamos palavra alguma. Não havia o que falar. Tudo o que estava guardado, todo amor era transmitido nos olhares constantes, nos carinhos, nos abraços. Toda saudade que sentiamos por não fazermos isso antes morria a cada beijo. Era um momento eterno. Não precisava de palavras. Por mim aquilo poderia durar o tempo que fosse. Por ele também. Era tão bom sentir seus dedos no meu couro cabeludo fazendo um cafuné gostoso. Na televisão passava um filme qualquer que em nenhum momento atraiu a nossa atenção. Na rua os vizinhos faziam barulho em alguma festa de aniversário, ou de qualquer coisa. Mas nada disso importava. Luca finalmente estava ali comigo. Eu finalmente estava ali com ele... A partir daquele momento eu faria tudo como sempre sonhei. Tudo daria certo. Ou não.
Luca não queria contar para mim a notícia que recebera de seus pais. Ele tinha medo de ter que ir e nunca mais ter a chance de ficar comigo pelo menos uma vez e por isso resolveu adiar o máximo possível a tragédia. Mas ele teria que me contar. Não queria me machucar, como sempre fez. Ele decidiu que contaria, mas não naquele instante. Não quando tudo estava tão bem. À noite seria uma boa hora...
Quando a noite chegou nós nos encontramos em uma das lanchonetes mais freqüentadas por nós, quando eramos menores. Ficava perto da praça e era pouco freqüentada, mas era a nossa favorita desde sempre. Eu reparei em como ele estava nervoso. Mas não conseguia encontrar um motivo. O que o deixaria tão nervoso quando tudo estava indo tão bem? “Ellen... amor...”. Eu não estava acostumada a vê-lo tão tenso. De uma coisa comecei a ter certeza: ou aconteceu algo muito ruim, ou... Ou iria acontecer algo muito ruim.
“Amor, eu não queria que isso acontecesse assim. Na verdade eu... eu sinto muito não ter te contado antes. Bom, o que eu quero dizer é que eu vou viajar. Meus pais me matricularam em um colégio interno no exterior, na verdade em Boston e eu... eu não tenho outra escolha a não ser ir.”
Eu não conseguia ouvir mais nada. “...nda... quecer... mo...”. Eu não ouvia mais nada mesmo. Quer dizer que tudo aquilo, tudo o que eu sempre sonhei, todo meu conto de fadas foi durante apenas um dia? “Ellen! Eu te amo, eu nunca, jamais vou te deixar. Eu não quero terminar com você...”. Eu não suportava mais ouvi-lo falar assim. O que eu mais queria naquela hora era fugir, pra bem longe, pra longe de tudo... Correr.
Depois de correr muito eu me cansei. Cai em um banco, na mesma praça daquela manhã onde tudo começou... E onde tudo acabaria antes de completar 24 horas. Luca, ofegante, chegou e sentou-se do meu lado. Eu ouvia o que ele dizia, mas não conseguia entender. Não queria perder tempo na ultima noite que teria perto de meu amor. Eu o abracei com uma força fora do comum. “Não vá, por favor Luca, fique aqui comigo... não vá... não vá...” Entre soluços, como os de uma criança, eu implorava e repetia as mesmas palavras. Não queria que ele fosse, mas sabia que não tinha escolhas. Ele teria que partir, pra bem longe de mim. E isso aconteceria na manhã seguinte.
“Não se preocupe meu amor, eu nunca vou te abandonar, não importa a distância... nunca.”

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